Bem Querer

Do gostar, enluarado no fundo dos olhos, pacato, claro, simétrico, feito gota de manhã dissolvendo a noite, verbo. Do tonalizar, ensolarado pelo impulso ao tato, sutil, inesperado, gesto, afeto. A beleza germina quando almas se reconhecem e destece a névoa que resfriava o peito e a pele.

A Métrica

Com o passo de quem não passa e prefere dedilhados sãos na cadência que segue e assume a própria afinação se abre pétala a pétala o tom. Toca pelo o que não pausa e não fere e encontra na alma o que transpõe amplidão.

Cristal

Havia um prisma de cristal pendurado na janela que apenas era tocado pelos raios solares na primavera. Anunciava ele à Sofia, esparramando raios coloridos, sua estação favorita. Por anos e anos quando tudo se coloria, ela respirava como uma criança, alegre, encantada: "é primavera". Por uma mudança de janela, o prisma pendurado deixou de ser... Continuar Lendo →

Entre o Céu e a Terra

O caminho é múltiplo, circular. Entre a paz e a guerra, entre a dança e a inércia, o caos harmônico, a harmonia desorganizadora. Ergue muralhas quem não se dispõe ao movimento, e adormece. Promove ventania quem por domínio em lança se ergue. É próspero o que navega selecionando não carregar o daninho, o ácido, o... Continuar Lendo →

Compassos

Se o nó na garganta se destece em canto e os descasos se despem em harmonia terra e céu em paralelo alinham, segue o peito oxigenando: alegria.

Solo Feminino

No movimento contínuo, atravessando noites. No solo de si: nutre. Entardece ciclos, recria a libertação das raízes através da pulsante força: flores. Imprudente o descrente que nada admira e erra nos olhos em foice, mãos frias. Errôneo o trôpego que tropeça quereres, falseia domínios. Ela contorna o tempo, se reergue lua após lua. É para... Continuar Lendo →

Do ser, a vida

As costas talhadas na dureza do outro, em pedra torta, fechada, embotada, rendeu noites inquietas, roucas. Mas os olhos eram vivos, inesgotável força. Atravessou ruas, contratempos, foices na angustia de ser um só e de só revelou-se não pouco quando a coragem desconstruiu muralhas, fronteiras, dores. Matéria de si viva, germinante, doce, nutrida em si... Continuar Lendo →

Astrologuês em MiNiConto – 01

- Como é que danço com a lua, mãe? - Menino, que idéia maluca, a lua é tão distante! - Mas eu gosto da lua! - Ah, garoto, coloca essa cabeça pro chão! E saiu a senhora andando a frente. Ele, atrás, uma bola no pé e um gol no coração, espichou novamente os olhos... Continuar Lendo →

Norte

Sonhos pequenos, de valores imensos, sonhados a conta-gotas, buscados por uma vida toda, tantas vezes negados, estradas. Somos tão pequenos, e o céu tão largo... atalhos que nos encontram de volta, sinais, placas, insights, uma pequena concha pelo mar deixada, uma noite inteira em afago de presságio, para que o sol reaqueça no peito como... Continuar Lendo →

Luz

Uma borda de luz, um anzol, uma linha sutil de sinais desliza na guia, conduz. Uma chama, através da onda gentil de espuma clara se acende e propaga: o amor te guarda.

Vênus Alada

Não sabia da perfomance das escolhas a prolongar mais tempo do que cabia se vendo pouca, pequena, inútil coisa. Não sabia para si suaves brisas, doce pousar que lhe valia. Via-se bruta, amarrotada, poeira tosca, de si, então, sabia nada. Até que um vento imperioso rompendo amarras quebrou o errôneo espelho torto. Desabotoada das vestes... Continuar Lendo →

Solo

Derramava um silêncio de desatar nós, nós que já fomos, nós que borramos sóis. Sois da cor a pétala que desfixou, por força da voz o só, o nó, o nós. E por tato da falta de espera cansou e retonalizou em pluma leve, dispersa, para além do nó.

Arranjos

Da sombra de quem teme entre emaranhados ilusórios emerge a força límpida, clara, rompendo os olhos em horizonte caótico, preciso, precioso alto mar. E quem havia perdido as chaves, visto desérticas caminhadas, repousa no tato do contato de um universo inteiro a lhe embarcar.

Lucidez

A dança incerta entre o sentir e os pés na terra, quem ensina como é? Se diz, não acerta. Nem compasso, nem métrica, de pulso sincopado. Que a dança trama entre pernas o desejo e o manifestável conforme cada par de passos improvisa no tato o que consegue ousar. Nãos e sins explodem big bans,... Continuar Lendo →

Chorus

Nenhuma crítica, nenhuma dúvida, nenhuma coisa alguma enquanto os olhos sentem todas as úlceras não minhas, do outro, enquanto dança a renda exposta das faltas, marcas. Nenhum colóquio, ponta de faca afiada sobre o peito do mundo que adormece em alucinação trôpega. Ah, mãezinhas, por onde andavam no tempo em que a dor se costurava... Continuar Lendo →

Solfejos a Jorge

A embarcação adentrava noite. Na escuridão da direção, angustia na proa, medos em reflexos de orcas, tubarões, quem sabe monstros marinhos, dragões. Sofia tinha sonhos nas mãos, mas elas tremiam. Ali sozinha, tendo um mar inteiro de caminho, um horizonte no peito, a mente aos olhos lhe traindo. Era tanta água incerta a volta, que... Continuar Lendo →

Prosa de conselho contado

Um reino de sentir e sabores, guardado, trancado, negado como parte, míngua de seiva e tonalidades a vida. Ser em si sua mais frondosa árvore, não é perigo, nem pecado, é o gozo do íntegro. Nutrir de si por se permitir crescer a partir de suas próprias sementes, é a entrega ao prazer mais genuína,... Continuar Lendo →

Conselho dado

Repara, flor, demolições descontroem as fronteiras para lá onde o norte brota o sol do sentido. Ouça, flor, um pulso de força erguendo nutrido de bem-querer, unguento, intenso farol de liberdade. Seja, flor, a dança sincopada que trança sonhos e verdades em seu fértil tempo enraizado.

Salto

Buzinas, ruídos, tráfegos, vira e mexe lhe entupiam os sentidos. Desbotava, assim, como pétalas que pendem. Afogava no não ser, feito entorpecimento poluído. Quanto menos oxigênio no sentir, afogamento. Virava um carteado clichê, mímico de capas, etiquetas, sentado em praça pública, como quem só o tempo gasta. Indigesta cidade do reino do eu limitava. Até... Continuar Lendo →

Sob um céu de peixes

Ele via peixes no céu, ela era peixe mergulhando ao lado. Ele via nela os astros, ela o cobria de jardinagem. Rendiam noite a dentro em laço, construindo pontes entre universo, terra, amor, estrada. Voavam. Orquídea na varanda da casa, pé de romã, cheiro de mato. E a poesia escorregava do sofá para a cama,... Continuar Lendo →

(Des)Silencie

Tinha no peito uma coleção de espinhos enrolados em arame farpado. Os olhos carregados de silêncios e sombras. Palavras, palavras de sol bem regadas são tão necessárias, para que possa destecer a dor que estendeu de dentro a quem ousou amar e caminhar com você.

Que tiros são esses?

O tiro que tiras de dentro do peito e atiras com mira ou alheio, me diga, de que é feito? Foi da tua luz ou da sombra, foi por luz ou por sombra, foi para a luz ou para a sombra? Agora, me diga, qual o defeito, o conceito, que se atira ou tira, e... Continuar Lendo →

Eram minhas

Eram olhos de brilho intenso, degustação de traços, trejeitos, graças. Era olhar de apaixonada, derramando descoberta, contornando o outro com os sentidos. Ótica de maresia, inundando melodia com o coração de oceano. Suspiro. Como ventos sempre sopram, a névoa destece, a realidade se mostra com todas as ranhuras de pedra. E o outro ali, nu,... Continuar Lendo →

Em trânsito

Às vezes se vai pegar um ar e volta com o peito quadrado. Outras vezes, do caos, brota uma brisa oxigenada. Termômetro, meteorologia, qualquer coisa que mensure o inesperado, não existe. João passava dia após dia levando a vida na calculadora. Rita, na régua. Pedro, na balança. Ana, a conta gotas. Uma matemática falida, exaustiva,... Continuar Lendo →

Das inteirezas

Do lado de fora, fôrmas, formas, rotas, concretos insólitos com pixações, etiquetas, jornais insatisfeitos. Ilusórios. Para o lado de fora, invisíveis eram. Para o lado de dentro, potável, doce, água de lagoa de afeto carambola, laço, ar liberto, oxigenado no tato do abraço, olhar de cafuné ao pé do ouvido. Para o lado de dentro:... Continuar Lendo →

Peito Cheio

A maré subia, tudo a volta era som de mar quebrando alto. Um caos marítimo se revelava, trazia conchas, espantava peixes. Olhou a volta, o peito apertado. Parecia seu próprio reflexo a agitada bandeira vermelha. Esticou as costas na areia que parecia carregada de pedras. Adormeceu olhando gaivotas, desejando os olhos mais leves. No sonho,... Continuar Lendo →

Do tato

O menino sozinho na beira, as mãos tentando moldar e reter bola de areia. Os grãos distraídos escorrendo dos dedos, as ondas rítmicas os engolindo. Não se molda em areia, seu menino. Se esculpe no trato, no dedilhado, em barro. Mas até o barro racha frente a gesto descuidado. Era um sopro de brisa ao... Continuar Lendo →

Seguir

Ao passo do que preciso for desmanchar, desconstruir os rumores da memória, náufragos perdidos, laços dissolvidos desmuralhar os sentidos, reatar consigo. Ao passo do que a vida propor tornar a grão de areia, reconstruir.

Carinho

Rola na mansidão do tempo em onda de brisa que não se pontua a delicadeza da ternura.

Dicionário da Mutualidade

AFETO: no acolher, ser afetado e afetar no contato. CUMPLICIDADE: ser uníssono na vivência, na troca, laço. AMIZADE: ser banda no sol ou na tempestade. PAR: a arte de somar, sem borrar, afeto, cumplicidade, amizade. GRAÇA: uma sopa das quatro palavras.

A água mais quente

Era uma roda de amar muito maior que a beira, uma ciranda de dois em pouso de doce cheio. Era uma renda bordada entre nós de um rio em leito inteiro. Era uma flor trançada entre dedos, um mar de corpo e sossego, uma graça de alegria cúmplice embolada entre os cabelos. Um deságue exagerado... Continuar Lendo →

Sem parar

Para derramar: não adoecer de fluxos ao meio. Para ensolarar: viver o que inunda inteiro. Para ser: despir do peito areia. Para amar: o mergulho ao que leva ao verdadeiro.

Latitude

Eram dois passos de distância entre a verdade e a incoerência. Um ponto ao centro em mapa escorregadio guiava o movimento de olhos fechados. Era o tato, um feeling sutil, uma brisa de sentimento bussolando o movimento. Ao final, tinha tudo e não tinha nada. Nem marca de quimera, nem toque de angelical asa. Havia... Continuar Lendo →

Longitude

Afasta-te pé ante pé dos desvarios das margens, por onde escorrem as falas displicentes dos sentidos e infiltram limos de indiferenças. Escorra pelo profundo dos sentidos o mergulho despido em entrega e verdade. Liberdade. Ser a pele do contato dissolvida em água.

De metáfora e melodia 05

A gente é como um instrumento. Desafina, afina, ganha uns arranhados, tem o poder de um som cheio, desafia quem manuseia, precisa de cuidado... A gente é só instrumento, e somos apenas som em possibilidade. A gente muda, e muito, na variação rítmica do tempo da vida. O repertório muda. As durações mudam. Os exercícios... Continuar Lendo →

Do instante feminino

Tinha um pulso de tormenta dobrada no trilho do tempo andado. Uma força tremenda, em renda vazava os quereres de um peito que não se rende, deságua e segue pelos passos dados entre o medo e a coragem. Eram os olhos de colheita arredondados, contendo todos os elementos em um universo. Era um só feminino,... Continuar Lendo →

A liberdade do pulso

Eram três tempos o necessário. Se abrir. Sentir. Renascer. Eram três passos de contato. Semear. Cultivar. Colher. Era uma só vida no pulso. Ser. Para tudo que limita: lavar, desfazer.

A sororidade não passageira

Tinha os olhos inundados de uma vontade, as mãos em gesto de tentá-la, alguns calos no peito, alguns nós na garganta, um furacão de sonhos em novelo buscando um tecido como colchão. Se virava ao avesso, ousava piruetas, tecia a beleza de ser onda cheia apesar de toda sua inexatidão. Me pôs parada, quebrada, a... Continuar Lendo →

A gota

Havia um peso nos olhos difícil de escapar. E o olhar distante, perdido, perseguia sem ver o que lhe custava a leveza. Naquela manhã, frente ao espelho, escova, gilete, sabonete, deixados de escanteio, ficou ele por minutos encarando a si mesmo. - Eu errei com você. E o peso das escolhas passadas, displicentes aos traços... Continuar Lendo →

Desdobra

- Vê, meu filho, como esse mar transborda. O menino pequeno, com os olhos atentos, roçando o pé na areia, com algum estranhamento: - Tem borda? - Só olha. - Ó a gaivota! Ela entre a brisa e o peito doendo: - Você vai crescer e ter que ensinar um dia seu filho a ver.... Continuar Lendo →

Decifra-te

- Leve suas sementes por toda a travessia. No percurso aprenda sobre o processo delas. Atravesse o vale dos medos errantes. Seja tolerante as suas quedas. Prossiga. Ao norte de teu sentido, encontrará solo fértil. Então plante. - disse-lhe a esfinge ao invés de "decifra-me". Ela ouviu sentindo o calo das dúvidas apertarem a garganta.... Continuar Lendo →

Da grande miudeza

Das pequenas coisas com a singeleza do inquebrável: o ser por inteiro. Quando tudo a volta é mar de onda em quebra, a beleza está em chegar íntegro na areia.

Na pauta da vida

Disciplina é rítmo. Respeito, ao andamento. Tensões pedem o retorno à base. Transpor é adaptabilidade. Simples, e nada simples, a música da vida: inesgotáveis matemáticas.

(Des) Proporções

Era pequena demais, miúda. No turbilhão das coisas fermentadas, a moça. Pequena dobra de gentileza da pétala pendida ao tempo, única. Era doce demais aos bárbaros, grossa demais as brisas, era qualquer coisa na desmedida, entre o não ser escorregadio quase invisível. E era forte demais que simples, graúda. Apesar do tudo isso.

Cala por calo

A tal dessa verdade ( o tao dessa liberdade) vem a galope, faz seu rasante. Pobre desses inexatos roncantes desses personagens em suas não integridades desconcertantes, feito crianças ásperas de poucas nuances, não sabem o quanto a verdade se faz gritante. Cala-te quando não sabe que a fala te é errante que torna-te pequeno frente... Continuar Lendo →

Quem sabe…

Quem sabe na próxima borda a busca se desdobre da trança das faltas. Quem sabe logo ali no adiante o peito se recorde do que soma para fora da curva da sombra que não doma. Quem sabe um renascer recorde. Quem sabe um laço encontre. Quem sabe o cheio se comporte. Quem sabe os sonhos... Continuar Lendo →

Dis-sonhos-sãos

A gente sonha um tanto de coisas no peito que deita fora a curva da noite e destece o que não somos. A gente gesta os sonhos que deitam a curva do dia de ser quem somos.

Do outro

Ele não sabe o que fala. Ele não sabe o que cala. Ele sabe e não arde enquanto arde e não sabe o que não sou que não cabe o que sou que não me sabe, enquanto eu quanto a ele sei nada, não me cabe, não me falo e não me calo na densidade... Continuar Lendo →

A dança

No centro da paz dança o movimento. Todo o caos a volta se rende ao centro, a liberdade do ondular em fragmentos o que se desconstrói e se reconstrói dentro.

Sabotagem PARAPARAPÁ

Por vezes as relações com as quais mais nos importamos, ou as realizações que mais buscamos, são exatamente as que mais sabotamos. Mas por que sabotamos? Não acordamos naquele dia decididos ao dar uma boa espreguiçada, dizendo "bom dia, dia incrível para eu me sabotar"! Mas verdade seja dita, todo dia é mesmo um dia... Continuar Lendo →

A roda do mar sem beira

Quando aceitamos quem não veio e aceitamos quem se foi, aceitamos o passo da dança e seus novos começos. Quando aceitamos o que se fez e aceitamos o que se deixou deixamos de lado a dança para ser fora da dor. Quando aceitamos o não dito e aceitamos o que se vivenciou, saltamos para fora... Continuar Lendo →

Eu, você e nossas sombras

A gente foi ensinado a não ver nossas sombras. Não. Nós não fomos ensinados a observar nossas sombras reconhecendo nosso poder de escolha quanto a elas. Na maior parte das vezes, tivemos aprendizados distorcidos, sem nenhuma aceitação dos dois lados. E ficamos cheios de expectativas sobre as não-sombras que gostaríamos de caminhar ao lado. Por... Continuar Lendo →

É só um prato de afeto

Em um dia corrido de atendimentos, saio rápido na rua. Sou abordada por dois meninos vendendo bala, digo: não, obrigada. Um passo a frente, me ressoa pelas costas um grito: - É só um prato de comida! Foi um dia incrível de pessoas de diversas idades trazendo aprendizados sobre suas dores emocionais, sobre suas carências,... Continuar Lendo →

O mundo não para e nós não vamos descer

- Que semana louca a que eu tive, todo mundo parecia estar me atropelando. A queixa é rotineira em pessoas e histórias diferentes. Por vezes nos sentimos verdadeiras formigas no planeta dos dragões. Sentimos tudo de mais pesado: medo, dúvida, culpa... E desatentos, não percebemos o enorme poder que estamos dando aos outros e as... Continuar Lendo →

Para quebrar padrões culturais afetivos

- Cris, pra que eu vou ficar com o foco em alguém que está com o foco em outra pessoa? Abriu a pergunta ela, enquanto ainda nem terminava de se sentar no futon para a psicoterapia. Seguiu falando de suas conclusões e escolhas usando como referência a palavra reciprocidade, e estava, pela primeira vez, conseguindo... Continuar Lendo →

O mundo é fantástico, Alice

Alice, senta aqui, bem embaixo dessa árvore, vou te contar uma história. Mas fique atenta, Alice, mantenha bem aberto os olhos. Sem rota de fuga, sem que o veja como um labirinto sem fundo, o mundo é sua escola, Alice. Não precisa ser gigante quando se sente pequena, não precisa se apequenar quando se sente... Continuar Lendo →

Blog no WordPress.com.

Acima ↑