Dos interiores do interior

Subiu a rampa de barro molhado que atravessa o jardim. Fechou o portão no escuro, já senhora do caminho. Retomou à varanda aonde mesas serviram refeições durante o dia. Com a cozinha limpa e a luz apagada, respirou o fim do trabalho. Sentada no banco de tronco de árvore, os dedos sobre a toalha quadriculada acariciavam o tecido no ritmo do pensamento.

Seus pais e seus avós trabalharam na lavoura, tinham o hábito de retornarem para casa trazendo algo de comer para o dia seguinte em um saco de pano. Um dia sua mãe, ao retirar uma abóbora do saco carregado às costas, fechou os olhos. E assim foi com as outras mulheres de sua família, todas jovens, sem dar sequer uma pista de despedida.

Agora ela ali, contando seus 60 anos. Os filhos crescidos estudaram na escola aonde pelas manhãs ela também trabalha na cozinha. Os netos pequenos crescem em cidades grandes. Mas os filhos não deixam de aparecer nos fins de semana, que ela aguarda ao longo dos dias para conversarem próximos do fogão a lenha, e sempre recontar a história de que sua mãe conheceu pela primeira vez uma privada naquela casa, quando casara.

Um sorriso molhado escapa dos olhos, com a imagem da neta de três anos correndo atrás das galinhas, tentando pegar uma borboleta, pedindo para ir no rio. Espichando os olhos ao portão acima, o suspiro: Ô, Pai, que demore mais a minha hora, deixa eu aqui na minha terra.

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