À casa grande

Com toda liberdade do respeito, minha patroa,

como a senhora é perversa, D. Poesia!

Não perdoa uma bainha de tempo escondida na dobra da minha letra…

fica quietinha ali guardada na espera de ser relida

pra zombar dos meus tropeços nas suas esquinas.

Me entrega, assim de bandeja, ao olho bobo bandido

que é tanto meu quanto as tais letras, e banca espelho.

 

Mas vê que sempre chega o dia do feitiço virar contra o feiticeiro.

Sentada aqui, aonde também te sirvo de escrava e ama seca,

te organizando as páginas, faxinando as especiarias devoradas da sua geladeira,

não é que meu coração quase tem um treco às gargalhadas?!

 

Ah… pensou que me prenderia à catequese das suas rimas?

Que umas chibatadas de versos me manteria quixotinha menina?

Esqueceu, minha querida velha, aquela receita da sua cozinha

que no calderão das palavras todo o sentido se subverte? Roubei, e daí?

 

Sabe qual o gosto da alforria? O tesão de uma página limpa

que não precisou rasgar nenhumazinha anterior do próprio livro

pra gozar a máxima alegria de parir quantas crias novas quiser a boca.

A fome de pimenta e saliva pra aconchegar nas linhas,

o anúncio do santo verso no terreiro de que vem dia de festa

– o banquete entre céu e terra: unidas as mãos, escrever.

 

E se estou aqui, cabeça à prêmio, te encarando as verdades escondidas,

é porque quero, de escolha própria bem certeira, te jurar fidelidade,

e te levar com graça, e fazer império seu na minha vida.

Basta a garantia…

de não me querer serva, me aninhar noite e dia, se sabendo companheira.

 

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