Gastar o Velho, Nascer o Moço

“Deixo tudo assim
não me importo em ver a idade em mim,
ouço o que convém.
Eu gosto é do gasto.”*

Receita médica no spa das fugas:  Acupuntura, agulhas milimetricamente posicionadas nos bloqueios das contas impagáveis. Litros de silicone para preencher o amor bebido. Botox para paralizar velhas expressões. Ansiolítico para o bruxismo das preocupações fantasmas. Drenagem linfática a desreter afetos não digeríveis. Roacutan para calar as erupções do não-dito. Lipo, profunda aspiração das famintas mãos doces e fritas alheias. Fio de ouro para costurar os sulcos das decepções. Anti-depressivo para conter a morbidez do apetite sexual das carências. Ofurô nos lençóis dos encontros superficiais. Gastroplastia, diminuição do espaço da fome de vida.

Evolução: beco sem saída.

Prognóstico: todo tempo necessário para a resposta do se olhar de frente.

Contra-indicação: sonoterapia.

“Sei do incômodo e ela tem razão
quando vem dizer que eu preciso sim
de todo o cuidado.”*

Aprender com os felinos: o ato das lambidas. Peneirar afetos e desafetos, guardar na poupança os abraços. Observar caninos: selecionar mordidas e lealdade. Curso intensivo de gourmet: discernimento das farinhas, ousadia nas culinárias exóticas, degustação de finas línguas, banho-maria nos alimentos indefinidos, banho de chocolate na seletividade dos amigos, ética no mexer a massa do bolo.

“E se eu fosse o primeiro
a voltar pra mudar o que eu fiz.
Quem então agora eu seria?”*

Sem bola de cristal, entrar na sala de aula levando à mochila cadernos recicláveis e limpos. Primeira aula: utilização da bússola. Segunda aula: aritmética dos imprevistos. Terceira aula: português das clarezas. Prova: a responsabilidade sobre as escolhas das condutas.

 

“Tanto faz. E o que não foi não é,
eu sei que ainda vou voltar.
Mas eu quem será?”*

Revisão legislativa. Inclusão do direito a se refazer.

“Deixo tudo assim, não me acanho em ver
vaidade em mim.
Eu digo o que condiz.
Eu gosto é do estrago.”*

Especialização na yoga do despir-se ao espelho. Tatuagem de bem-querer sobre toda a pele. Adubo de flores sobre as cicatrizes. Beijo nos calos. Meditação frente ao altar do deus dos caminhos que deram errado.

Indicação de profissional: traumatologista

Alta: tanatologista.

“Sei do escândalo e eles têm razão
quando vem dizer que eu não sei medir,
nem tempo e nem medo.”*

Recisão de contrato de operário das expectativas. Aulas circenses nos malabarismos das quedas das imagens. Oficina literária da assertividade da verborragia. Incineração dos calendários. Treinamento de esgrima às cobranças. Capoeira na senzala financeira. Batuque no quintal da intensidade. Harmonia na sonoridade das buscas.

“E se eu for o primeiro
a prever e poder desistir do que for dar errado?”*

Três moiras. Giro no eixo da roda. Urano no céu.

Respeito supremo a imprevisibilidade do tempo.

Manifesto contra os certos e errados.

“Ora, se não sou eu quem mais vai decidir
o que é bom pra mim?
Dispenso a previsão.
Se o que eu sou é também
o que eu escolhi ser aceito a condição.”*

Ser é a dose medicamentosa suficiente.

 “Vou levando assim
que o acaso é amigo do meu coração
quando fala comigo, quando eu sei ouvir”*

 

* Da letra O Velho e o Moço, de Rodrigo Amarante

**Pra cantar às voltas de Saturno

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