Confessionário Simbólico no.1

Tenho para mim que determinadas faxinas que se faz na casa levantam certas poeiras de tristeza. Poeirinhas, nada grave. Uma frustração chicletada na porta dos fundos, uma perda quebrada no canto do armário, uma decepção escondida debaixo do tapete. Como todas pertencem a um tempo passado, não rondam entrem as paredes feito fantasmas… logo, uma dorzinha que haja ao reencontrá-las não enfarta, mas pede um quê de “veja”: pano molhado.

Na minha casa não entram sapatos. Por mais esquisito que seja esse meu hábito, diz da personalidade da dona: gosto por chãos limpos e cultivo do lar como espaço sagrado. Também aqui não se deita na cama com roupa de rua, e fácil retruco: aonde já se viu gostar de poluir o que acolhe o corpo com texturas macias? Já passei madrugadas colorindo paredes, e o escritório tem um ar de improvisão cotidiana do País das Maravilhas. Por todos os meus cuidados com a palavra aconchego, fica óbvio de se esperar: não guardo dores, as jogo com todos os seus emaranhados na lixeira. Mas… droga… tem umas poeiras imateriais que os olhos deixam passar…

Não teve jeito, por melhor que fosse a vassoura precisei suar um bocado, passar escovinha em minúcias, colocar de molho as cortinas, costurar uma meia furada, podar umas folhas secas das plantas, desentupir uma fonte, mudar o lugar da cafeteira, renovar as ervas da cozinha. Não estou cá em resmungos, meus próximos bem sabem que faço isso com gosto e leveza; mas andei com um problema danado: cansaço de dar conta da palavra cuidar sozinha.

Agora estou aqui, em uma casa arejada, leve, perfumada e limpinha. Cabelos molhados no entrar do vento do inverno, foi preciso mais de um banho: as malditas poeirinhas subjetivas. Fiz espuma um tanto na bucha com sais de banho de rosas, acabei fluindo mundos internos no chuveiro: a pele clara desde neném veio sem manual de instrução, mas sabe: nada de casca entranhada, nasceu com querências de algodão. Poeiras são coisas bonitas apenas dissolvidas… bolhas de sabão.

3 Respostas para “Confessionário Simbólico no.1

  1. Sabe, eu também gosto de andar descalça em casa.
    E costumo encontrar essa tristeza nas faxinas, planos não realizados, lembranças tristes e bonitas.

    Cris, querida, to pra te mandar um email. Como ficou o mestrado? Lembro que falou disso lá na Ártemis. Conseguiu?

    Beijinhos

  2. Bolhas de Sabão!!!!!!

    De toda a limpeza, é essa a leveza que fica.

    Amo ocê…

    Bjs da irmã

    danni

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