Em Lis, Sem Pector

Por anos a fio, Clarice!, carreguei aquele seu texto debaixo do braço, e achava, ah, por que achava?, que aquela sua solidão desde o berço, aquele querer pertencer sem conseguir ser, me unia na falta, me amparava, como sua solidão amparava você. Quantas mentiras a gente inventa, Clarice!, para justificar se obscurecer. Quanto castelo de areia, obra enfileirada fazendo muralha, a gente pinta à frente, estampa capa. Prefiro rasgar os erros dos nossos pais, tão humanos, como eu e você, como quem rasga as páginas de um livro encarquilhado de passado. Prefiro espanar fora a poeira do medo que nos afasta por nossas dificuldades, para ter meu nome escrito, não na biblioteca das chagas, mas no compêndio da vida, na arte sagrada do milagre de poder renascer todo dia. Eu hoje sinceramente acredito no amor, Clarice!, em sua forma simples e grandiosa… e sei, enquanto se espera nada se sabe dele, e ele não virá como remédio enquanto se é selvagem. Felicidade nenhuma é clandestina, o lustre a maçã não ilumina, um sopro não é corpo inteiro, não há pecado em ser, Clarice, se todo esse dom de nos iludir nos ensina a cada ponto e vírgula a nos corresponder com nossa estrela. Vou te desparalizar das minhas prateleiras, te devolver à circulação no mundo, e isso me une a você. Obrigada por tudo, Clarice…, mas agora sou eu com minhas linhas, meu começo. Não quero entrar para a história, quero fazer a história de quem foi capaz de abrir a porta e receber.

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