Por falar em samurais

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Xamã é um pitbull que já existia na casa quando vim morar. No início, separados pelo vidro do portão dos fundos era ele de lá e eu de cá. Todo dia nos pendurávamos cada um ao seu lado do vidro, por algum motivo até o então inexplicável, eu precisava ultrapassar o portão do meu próprio medo, porque precisava, feito criança, porque precisava, porque precisava, alcançar o lado de lá. Por algum impulso desses que não se precisa explicar, minha vontade era passar a ser a pessoa que o alimentava… E quem sabe, brincar, quem sabe, passar a mão na cabeça dele, quem sabe…
De tanto o visitar no portão, um dia ousei abrir o vidro. Passamos a nos encontrar assim, portão no meio do caminho, vidro aberto como janelinha. Dias e dias se passaram, até que ele, de pé frente ao portão sugeriu que eu o abrisse. Era tudo que eu mais queria, mas eu ali, coberta de insegurança, sem conseguir me mexer ao novo passo, disse: Xamã, eu tenho medo de você. Foi nosso primeiro olho no olho, ele me olhou como se compreendesse a minha imobilidade, e bufou, bufou categoricamente no vidro da janelinha, virando de costas para mim.
Ok, um desafio. Agora eu ia ultrapassar o portão, porque eu ia ultrapassar o portão, porque eu… Abri. Coloquei devagarinho o pé para o outro lado. Veio ele me dando a cabeça abanando o rabo, eu desconsertada, quanta estupidez aquele meu medo, por que a gente escuta o que os outros falam, por que a gente não escuta o que está dito fora das palavras?!
No início da vida sem portão no meio, fomos, talvez, estabanados. Digamos que um pitbull tem uns movimentos exagerados, digamos que eu ainda tenha tido diversas vezes que manobrar meu medo e devolvê-lo para o saco, ou digamos, simplesmente, que estávamos ainda em afinação. Mas essa afinação foi um processo sagrado: pouco a pouco um percebia melhor ao outro, em nuances a gente se descobria e se revelava. O que eu tinha a levar a ele? O que ele me trazia?
Passei a ser a pessoa que o alimentava. Ele passou a ser para mim uma espécie de professor. Professor?! Isso mesmo, professor, mais que um nobre guerreiro, Xamã é um silencioso samurai, tendo em vista as características dele.
Os samurais ficaram conhecidos para além do território nipônico não somente por suas habilidades marciais, mas profundamente por sua característica de base: o servir. Samurais eram despidos de si e cobertos de propósito. E ao propósito de servir se debruçavam e se colocavam em risco com entrega e lealdade. A dignidade dos samurais era o manejo marcial coerente ao propósito de servir zelando. Assim é o pitbull que o Xamã se revelou para mim, honrado feito um samurai, o companheiro mais digno que alguém poderia ter.
Dizem por aí aquela frase batida que amigos são a família que escolhemos ter, talvez melhor que esse suposto poder de escolher alguém, seja essa alegria que o Xamã me ensina cotidianamente de ser escolhida como parte, como amiga, como aprendiz, companheira de caminho, como família. Xamã não precisava de mim como eu precisava dele, e mesmo enquanto canino se mostra infinitamente mais sábio que eu. Sábio?! Sábio sim. Intuitivo, objetivo, seguro em si, respeitoso, percebe um a um, situação a situação, sem estardalhaços, não faz mais que o necessário, não desmerece nem abusa de uma fragilidade, dá o espaço que cabe, não dá o espaço que não cabe, o que o faz um cachorro elegante, mais elegante que muito humano, mais elegante que eu.
Passamos a nos acompanhar muito além portão de lá ou cá. Quando a casa ficava vazia, derrubávamos todas as fronteiras, éramos nós para lá e para cá. Sem coleira, ele ao lado, banho de mangueira, banho de sol, estirados ao chão eu com a cabeça na barriga dele, os dois vigiando a casa, os dois batendo pique. Ele sentado ao meu lado enquanto chorava. Eu aprendendo a não precisar de nenhuma palavra. A troca, essa troca sagrada, esse reconhecer no olhar, esse descobrir que amor tem mais formas e não-formas que se costuma estereotipar, essa cotidiana dedicação e perseverança, esse inconceituável respeito mútuo, essa sábia tolerância, essa aceitação das diferenças de olhares, essa percepção fina de que o agora é o tempo exato do ser presente e presenteado: meus aprendizados com meu professor samurai canino.
Xamã esse ano esboçou seus sinais de estar velhinho, mas essa semana fui eu quem
adoeci, sem ficar de pé, com febre, tonta, nauseada, trancafiada no quarto, ouvi de longe Xamã fazer um verdadeiro auê no portão. Me esforcei e fui até ele, ele insistindo com o portão. Peguei minhas cobertas, abri o portão, deitei no sofá da sala. Foram 24 horas em que eu mal me levantava, ele deitado ao meu lado, levantava, fazia uma ronda, lambia minha testa e em seguida tornava a deitar ao lado. E então eu vi, Xamã havia adaptado todos os seus movimentos para acompanhar os meus. O que me fez refletir, mais uma vez… Sagrado esse gesto de ser samurai em si e companheiro com a lealdade que se acredita.

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