Na sala do sentir

Quando era criança e passava por um momento emocionalmente complicado, o colégio era uma espécie de libertação. Naquele ano, lembro bem do nome dela, a tia Mônica, ousou uma manobra arriscada. Me tirou de onde sentava e me colocou, definitivamente sentada ao lado de um menino. As mesas eram duplas, e ele era alguém nada fácil. Um menino com disgrafismo, que rosnava para tudo que se aproximasse.

 Meu primeiro pensamento: por que ela foi tão chata comigo assim?!

Mas rápido meu pensamento perdeu o espaço, tão logo meus olhos escorreram curiosos para o caderno do menino ao lado e rápido ele me deu sua primeira rosnada:

– Você nunca vai me entender!

– Por que?

– Porque nunca ninguém entende.

– Duvido.

– Duvido também.

Pronto. Começava nossa jornada. Nunca tentei mudar seu letrado. Mas fui profundamente imbuída a mostrar que alguém poderia sim compreendê-lo. A dor dele se parecia com a minha intimamente, e eu impulsivamente a acolhi. Errei um milhão de vezes, até que comecei a fazer meus acertos. Em pouco tempo éramos um festival de gargalhada. E mesmo com a demanda de bronquearnos, a sábia tia Mônica nunca nos tirou um do lado do outro.

Nos curávamos mutuamente, eu reconquistando minha esperança e alegria, ele amansando e se abrindo,  sorrindo para si, tentando diferente.

Éramos mesmo bastante criança, e mesmo que brincassem sugerindo “namoradinhos”, a entrega à cumplicidade da amizade era a nossa verdadeira base. Décadas a frente sim, fui imada a algo muito parecido, mas já movida pela tonalidade do apaixonamento.

Incrível como onde nos debruçamos com nossa melhor intenção, nos curamos profundamente. E ainda mais incrível, como quando nos propomos livremente a uma relação, aprendemos imensuravelmente sobre nós mesmos e sobre a vida, e o quanto assim nos tornamos inseparáveis do universo.

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