No Coração do Bloco

Tem gente que diz: nossa, que legal, você toca em bloco! Tem gente que diz: caramba, como você consegue tocar em bloco? Tem gente que diz com os olhos, gostaria também. Tem gente que faz cara de paisagem, mas com o olhar declara suas críticas célebres. E tem gente que se despudora mesmo e fala seu arsenal de desconhecimento e baboseira pré-julgando que por tocar em bloco você é isso ou aquilo, vive assim ou assado, nem preciso descrever. Mas acontece que, como tudo na vida, para falar de bloco, é ilusão se for de fora.

Cada bloco tem alma própria. Quase uma personalidade resultante da soma dos que integram. Os organizadores ou idealizadores, que dão a base, o suor e esforço para fazer acontecer, os tocadores que abraçam o propósito do bloco, e saem de suas rotinas para acolherem mais essa responsabilidade de estudo de repertório e ensaio, e os foliões que são atraídos por essa soma e dão sentido para tudo isso existir. Nessas somas, diversos universos a serem vividos se tornam possíveis.

Por volta do início de 2017, recebi uma proposta inusitada. Tocar em um bloco que estava nascendo, o Que Pena, Amor. Lembro que na hora pensei: um bloco que só toca Raça Negra? Que engraçado! Vamos lá ver qual é a desse povo. Fui. E é de dentro do universo dele que me ponho a falar.

O bloco é espécie bem ousada de família. Um mergulho intenso no aprendizado coletivo, uma oportunidade única de agregar no heterogêneo e propor o crescimento conjunto. Rico em possibilidades, convida incansavelmente a afinação das diferenças. As dificuldades, que são inúmeras e se apresentam naturalmente, convocam a todo tempo o exercício do perseverar, o sair de seus hábitos, o aprender com as necessidades do conjunto. Exercício de tolerância e amizade. Porque sim, no bloco, carinho e cuidar se misturam com tensões e desejo de permanecer junto. Se não fosse a oportunidade de estar no bloco, pessoas tão diferentes de universos tão múltiplos, como se encontrariam e cresceriam tanto nesse relacionar-se? Mas por que mesmo que elas inventaram de estarem juntas nessa jornada? Ah, essa semelhança em gostar de propagar alegria, essa coisa estranha e gostosa de pertencer e espalhar sorriso a volta. O bloco é um ponto de encontro, de si, do outro e da troca.

Ontem, saindo do ensaio lá pelas 22:30, pedi ouvidos a diretoria. E fui recebida e acolhida, até as 02h da manhã, de maneira impactantemente respeitosa e carinhosa. Fui dormir em paz, cheia de esperança, admirando as quatro personalidades que encaram corajosamente o desafio de gestar um bloco. Acordei morrendo de rir com o zap do bloco, e todo esse grupo de incríveis tocadores com suas personalidades tão singulares. E estou o dia inteiro entre a admiração e a gratidão com a frase na cabeça: Que encontro, amor! Que bom que lá atrás eu inventei de ir ver qual era a desse povo, e que bom que eu fiz a escolha de peito aberto de sentir o coração do bloco.

* Na foto: Bibiana Maia, Leonardo Lins, Karin Albuquerque e Rodrigo Dutra, fundadores e diretores do Que Pena, Amor, abraçando meu impulso de pertencimento e contribuição ao longo da madrugada. Muito, muito obrigada, por tudo isso!

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