No amor não se perde

Da época que trabalhei em CTI, entre os casos que mais me marcaram foi o de uma paciente, que vou aqui renomear com o apelido de Jasmim, e de seu marido, também aqui com nome fictício, Lírio. Conheci Jasmim em uma internação dolorosa, tinha um tumor em região inoperável da cabeça, que havia sido diagnosticado há 16 anos atrás quando estava grávida. O tumor, ao longo desses anos, a medida que crescia, lhe tirava alguma função. Jasmim internou naquele dia com suspeita de morte cerebral. Sentei do lado de fora da unidade intensiva para conversar com seu marido, me apresentei, fiz algumas perguntas, estabeleci a ponte inicial para fazer meu trabalho da época em suporte emocional. Mas Lírio me derrubou em sua primeira frase:

– Cristiane, eu sempre soube que a guerra nós iríamos perder, mas sempre soube que enquanto existissem batalhas eu lutaria ao lado dela.

Nunca me esqueci dessa frase, colocada palavra por palavra exatamente assim. Jamais me esqueci de seus olhos claros, molhados, honestos, e determinados, falando com uma série a mais de palavras silenciosas aquela frase. Nunca me esqueci de cada dia que tive a oportunidade de acompanhar o casal em sua trajetória árdua. Vira e mexe, em momentos diferentes da minha própria vida, me lembrei da perseverança desses dois. Saí do hospital quando minha avó, e criadora, agravava em seu percurso com uma metástase, e eu, que até o então tinha como carro-chefe a habilidade de trabalhar em processos de morte, reconhecia claramente em mim, que durante um tempo na área da saúde só me caberia a posição humana, de familiar que fica e encara o processo enquanto ele existe.

Por volta de um ano ou dois, não sei ao certo a conta, depois, avó falecida, eu com uma depressão, acolhi duas gatas de rua, com risco de vida, em minha casa, em minha vida. Dei-lhes os nomes de duas deusas nórdicas, e decidi que cuidaria delas dentro do melhor que pudesse. Frigg e Freija entraram na minha vida, quando o panorama era pra além do triste, e fizeram parte do meu processo de autocura. Por 14 anos caminhamos com personalidades bastante paralelas, e amar foi o meu remédio.

Há quatro meses atrás, tornei a me lembrar de Lírio, de seus olhos, sua energia e suas palavras, quando a Frigg apareceu com um tumor grave. O que pacientes erram é quando colocam sua percepção do terapeuta a cima do humano, e não consideram o quanto suas histórias se tornam parte de nossas próprias histórias, se esquecendo assim que na vida, em seu todo, como ensina minha mestra Ráshuah Vera Calvet, somos mestres e aprendizes uns dos outros.

Há quatro meses encaro as batalhas sabendo que perderei a guerra. E essa perda não tem como de fato ser uma perda por tudo que ganhei na trajetória da relação, pelo ser melhor que me tornei através dela. Hoje, exatamente hoje, Frigg dá os seus sinais de despedida. Se vai teimar mais um pouco, ou vai se permitir seguir livre, não sei, sigo ao lado para os dois casos.

Sei apenas de poucas coisas, nessa de fins, tropecei em alguém hábil em dar um sorriso irônico quando você se mostra humano, e atraí muitos alguéns hábeis em dar afeto e presença quando você também se mostra humano. Admirei a surpresa da discrepância pela qualidade das quantidades. E fico aqui, em paz, cuidando a Frigg em seu dia estranho, sabendo que cuidar e se dispor a estar ao lado é mágica que se multiplica, e faz a falta de amor que existe neste mundo se mostrar muito pouca. Sigamos em nossas batalhas da luz.

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