Para quebrar padrões culturais afetivos

– Cris, pra que eu vou ficar com o foco em alguém que está com o foco em outra pessoa?

Abriu a pergunta ela, enquanto ainda nem terminava de se sentar no futon para a psicoterapia. Seguiu falando de suas conclusões e escolhas usando como referência a palavra reciprocidade, e estava, pela primeira vez, conseguindo olhar através da autoestima, e não do padrão de sofrimento de quem fica com o foco parado na falta. De fato, atualmente, a palavra reciprocidade vem sendo bastante utilizada, mas opto como terapeuta, por circunscrevê-la da seguinte forma:

Recíproco: dentro de um fluxo.
Não recíproco: sem fluxo.

É preciso ter uma atenção: os dramas predominantes ensinados em nossa cultura nos condicionam desde crianças a visão de afeto como sacrifício, sofrimento por falta, necessidade de controle, e nos prendem a inúmeras expectativas sobre tudo que devemos ser para nos tornarmos “visíveis” ao outro. Essa busca por visibilidade tem uma voz silenciosa de fundo que diz: você não merece o afeto. E essa voz silenciosa, terrorista, nos leva a buscarmos pares que não estão disponíveis de fato. Eis o encarceramento na baixa autoestima.

Mas a cultura também nos modela a olharmos isso através de um fatalismo. E precisamos de uma simplicidade para não ficarmos nesse ralo. Somos livres para irmos na direção das pessoas. Faz parte buscarmos trocas, afeto, relacionamentos. Conhecemos pessoas, nos encantamos. Nos encantamos por elas, e pelo próprio sentir que se abre na troca com elas, nada anormal. Mas também somos livres para nos amarmos, a escolhermos colocar o foco onde tem fluxo, afinal, água parada apodrece. Nosso poder não está em fazer o outro ficar ao nosso lado. Nosso poder está em escolhermos o que nos cresce.

Se encante, se abra, troque. Não tenha a vergonha de colocar esse foco. Mas aceite que a verdade do que vem ou do que não vem te liberta de qualquer maneira. Seja pela possibilidade de aprofundar a troca. Seja pela possibilidade de se encantar com o que você tem de bonito e se redirecionar adiante.

paraquebrar

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