CONTOterapia – Maria

Que começos não são desbravados considerando os fins, humano. Maria foi uma criança de asas, se lançava ao que lhe encantasse, se debruçava ao que o sentir tocasse. Clara, alegre, dada. Mas crescer talvez não tenha lhe sido tão simples assim. Na medida em que os tropeços de pedras e chão árido lhe alcançavam, Maria sem perceber perdia a leveza das asas.

As pessoas não eram tão dadas, isso a chateava. As exigências curriculares, os protocolos, as formas, as asperezas dos olhares. Um grande amor desatado. As corruptelas mundanas, os pecados capitais, as legendas distorcidas que lhe carimbavam. Amigos que ficaram em algum tempo perdido, que ela nunca soube onde foi distraída que o tempo lhe escapulira. Parecia um grande liquidificador despropositado, um carrossel invertido, um giro sem eixo. Tudo isso, sem perceber, lhe azedou a massa.

Maria tornou-se um bouquet artificial, feito uma estátua que não se põe a dar um passo, considerando que o fim já venha fadado, que a falha se proponha em contratempo, e as quedas sejam o destino exato.

– Deixa de ser boba, menina.

– Não vai dar certo, Maria.

– Você é isso, a vida é aquilo, desperta.

Uma parafernália de frases de um mundo doente pouco a pouco se infiltrou pelo peito de Maria, que se deixou conduzir pelas sentenças de quem vive sem nada compreender que a vida é simplesmente movimento e improviso, tendo ora cá ora lá saltos rítmicos. Fechou-se a moça em escuro labirinto, poupando calos, adiando riscos. Feito bolor a tristeza se espalhava pelos pulmões, enquanto uma asfixia de sentido lhe tomava o pulso. Ruminante solitária passou tempos.

Mas a existência, como é, sempre convida a um novo passo, derrama algum filete de sol pelas brechas, pede a mão, se entrelaça. A vida é processo. E uma parte de jardim que resistia sem mofar no centro de Maria, se pôs a querer expandir. Trêmula, afônica, a moça tateou o chão.

Quebrar paredes pode mesmo não ser fácil. Abrir os braços, lançar-se. Ela venceu. Brotou em pétalas pela alegria da coragem. Um mundo completamente novo a recebeu de braços abertos.

– Nem tudo é quimera, Maria. – e um anjo soprou a liberdade das asas.

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