O canto do vale

Resguardado em um vale de acesso difícil, corria um rio conhecido nos povoados a volta, por revelar-se uma mulher d´água. Contavam as pessoas debruçadas das janelas, que sem calendário ou estação exatos, assim como de presente, de inesperado, acontecia da mulher se erguer modelada da água quando o rio cantava uma canção. Linda, doce, gentil, delicada, era como a descreviam.

Raimundo era um homem que vinha de terra distante e por distração de estrada adentrou o vale. Que mentira bonita esse povo gosta de contar, pensava ele ao escutar comentários da mulher. Porém curioso que era, desafiador, metido a ousado, antes de se retirar de volta a estrada embrenhou-se na mata para rir do rio. Enrolou-se um bocado na natureza fechada até que por fim sentou-se na margem.

A água rolava cristalina, pura, brilhante. Tirou os sapatos, lavou os pés. Em seguida, já como encantado, dali mesmo sentado, mergulhou as mãos, lavou o rosto. Era como se água percorresse ele por dentro, desatando emaranhados, lavando seu ego tão frágil. A força e a doçura dela o preenchiam como um renascimento, quando de olhos fechados ouviu ressoando perto da pele um canto em língua desconhecida. Abriu os olhos. A mulher se erguia das águas o circundando e acariciando.

– Você existe – era tudo que conseguia balbuciar como um mantra.

Ela sem uma palavra, apenas seu canto, permaneceu frente a ele, límpida, doce, afagando, mostrando a correnteza como um convite.

-Venha comigo, torne-se de barro, vista-se como os humanos, te arranjo sapatos, tenho uma casa distante bem emuralhada posso guardá-la.

E no canto, uma voz em resposta:

-Eu sou feita d´água, irrigo essa mata, meu sentido é no vale, aqui você cabe.

A ira tomou Raimundo ao passo que o medo das coisas não feitas ao seu jeito o estremeceu.

-Feia! Mentira! Se não é como quero você não existe! Azeda! Bruta! Suma! – atirava pedras enquanto esbravejava falando inverdades que negassem o sentido.

-Siga seu caminho se não pode ficar, mas não turve mais meu curso se não pode aceitar o que tenho a dar. – e desmanchou-se frente aos seus olhos e gestos deixando apenas o correr transparente da água.

O céu a cima de Raimundo fechou em tempestade. Um raio próximo aos seus pés levantou um escudo de pedra com sua face espelhada, impedindo-o do contato com o rio. Toda a mata balanceou a volta, devolvendo-lhe os sapatos e o recolocando despido na estrada. E lá, de peito estufado e olhos cerrados, ele marchou de volta a sua escuridão maldizendo o vale.

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