TAI – contoterapia

Tai tinha os olhos tão redondos quanto o coração. Na nuca um apinhado de nós deixados por passagens alheias. Uma tia dizia: garota ingênua. Talvez Tai tivesse mesmo uma resistência a perder as ingenuidades, ou aquele fosse o jeito da moça de não se embaralhar com as sombras do mundo. Tai era como uma gota de lua solta no mar, com uma solidão impregnada nos ossos.

Como é das pessoas serem muito curiosas, queriam sempre saber dos amores da moça, que tinha por hábito contar pouco. Tai sabia como ninguém que o que se sente não é suficientemente representado nas palavras, e sempre sai um tanto torto quando interpretado. Mas fato, o problema, sabia ela consigo: era muito romântica, e isso estava fora de moda.

Certa vez um homem muito romântico também passou por sua vida, e foi magnetismo a primeira vista. Um encontro de relíquias, uma dissolução de fronteiras, um horizonte ensolarado. Mas ele tinha mais nós na nuca do que ela, e os ossos ainda mais impregnados a ponto da extrema solidão lhe ser confortável. Se amaram? Muito. Mas como amor romântico está fora de moda, descrente da realidade ele um dia olhou para Tai e disse: você não me quer, vou-me embora. E partiu, deixando Tai partida, com o coração quebrado fazendo um tic-tic.

Mergulhou no mais profundo silêncio. Ficou pálida a tal ponto das pessoas guardarem suas curiosidades e não perguntarem nada. Uma dor emaranhou moça inteira. Foi ingênua? Era o que se perguntava. Não, foi verdadeira. Mas da mesma maneira que o amor é muito mal cabível em palavras, também o é aos olhos, menos ainda a mente.

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