CONTOTERAPIA – Ana Anda

Ana por muito tempo foi uma pequenina planta andante. Com as formas incertas, um aspecto de coisa pelo caminho. Porque não se achava em si mesma, perambulava procurando seu canto. Muitos que lhe passaram tentaram dar-lhe nome, caracterizar, prever infortúnios ou floradas. Mas nada daquilo lhe resolvia, tampouco alegrava. Por vezes sentou-se em pedra em beira de riacho com o pensamento:

⁃ Se eu fosse musgo seria mais fácil.

Por diversas outras vezes admirando os animais, se perguntava desanimada pegando os curtos e frágeis ramos de suas raízes:

⁃ De que me serve isso? Para onde ando?

Para dentro e para fora Ana Anda era de um despertencimento árido. Por isso, como quem atravessa um deserto, andava. Certa vez, atravessando um local sombrio e úmido, ouviu de uma tartaruga:

⁃ Quem me dera que eu fosse assim tão rápida.

⁃ Quem me dera que eu tivesse seu casco!

⁃ Ah, essa casa pesada?

Ao ouvir o questionamento da tartaruga, Ana caiu sentada em prantos:

⁃ Eu não tenho casa, eu não sei por que ando, eu não sei o que tenho de gostável, eu não tenho nada porque não sou nada, e já tentei tanto.

A tartaruga solidária aproximou-se bem dos pés de raízes curtos de Ana. Com toda sua lentidão e pequenos movimentos, pôs-se com as patas a pressionar suas raízes e afundá-las enquanto falava:

⁃ Você não é o que não acha. Não precisa de cascos nem de patas, muito menos de asas. Porque quer ter casa, não sabe a casa que é. Porque tem medo de não ser amada, não sabe o que de amor em você frutifica ou floresce. – e batendo bem as patas cobrindo de terra completamente as raízes de Ana, disse com sorriso de ser sábio de velho – agora que não pode fugir, vamos ver quem você é.

Dias e noites se passaram. Ana plantada, a amiga tartaruga ao lado. Com a chegada do inverno, Ana foi sentindo uma sonolência profunda. Acordou ao final da estação com o barulho da alegria da tartaruga:

⁃ Eu sabia! Você precisava era ter paciência consigo e correr o risco de se enraizar!

Ana sentiu uma altura diferente, mexendo-se na brisa como quem se espreguiça, percebeu os galhos fortes e longos. Neles pássaros, micos. Tinha flores, borboletas por perto. Tinha fruto, aroma. Assustada desceu os olhos pelo tronco, largo, repleto de texturas. Lá embaixo a tartaruga alegre, sábia amiga:

⁃ Ana, você agora é inteira família.

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