CONTOterapia – SOFIA

Sofia era pausa. Se resguardava do mundo a cada passo. A conta-gotas desbotava a palavra não expressa, o gesto não tentado, a vontade não ousada. Era sempre um risco a tentativa, o sucesso ou o fracasso, a aprovação ou o desagrado. Sofia vivia como música sem compasso, suspensa no ar das possibilidades, sem pauta, sem... Continuar Lendo →

Prosa Sinestésica

Um raio de sol escorria pela testa, ondulava nos olhos, piscava os pássaros no céu no leva e traz de respostas. Saboreava a brisa como quem bebe gota a gota um prazer de laço, afago dos sentidos. A noite não reviraria dúvidas, havia um sol embarcado, bússola no peito preenchido, verão no tato do inverno.... Continuar Lendo →

Astrologuês em MiNiConto – 01

- Como é que danço com a lua, mãe? - Menino, que idéia maluca, a lua é tão distante! - Mas eu gosto da lua! - Ah, garoto, coloca essa cabeça pro chão! E saiu a senhora andando a frente. Ele, atrás, uma bola no pé e um gol no coração, espichou novamente os olhos... Continuar Lendo →

Vênus Alada

Não sabia da perfomance das escolhas a prolongar mais tempo do que cabia se vendo pouca, pequena, inútil coisa. Não sabia para si suaves brisas, doce pousar que lhe valia. Via-se bruta, amarrotada, poeira tosca, de si, então, sabia nada. Até que um vento imperioso rompendo amarras quebrou o errôneo espelho torto. Desabotoada das vestes... Continuar Lendo →

Arranjos

Da sombra de quem teme entre emaranhados ilusórios emerge a força límpida, clara, rompendo os olhos em horizonte caótico, preciso, precioso alto mar. E quem havia perdido as chaves, visto desérticas caminhadas, repousa no tato do contato de um universo inteiro a lhe embarcar.

Solfejos a Jorge

A embarcação adentrava noite. Na escuridão da direção, angustia na proa, medos em reflexos de orcas, tubarões, quem sabe monstros marinhos, dragões. Sofia tinha sonhos nas mãos, mas elas tremiam. Ali sozinha, tendo um mar inteiro de caminho, um horizonte no peito, a mente aos olhos lhe traindo. Era tanta água incerta a volta, que... Continuar Lendo →

Peito Cheio

A maré subia, tudo a volta era som de mar quebrando alto. Um caos marítimo se revelava, trazia conchas, espantava peixes. Olhou a volta, o peito apertado. Parecia seu próprio reflexo a agitada bandeira vermelha. Esticou as costas na areia que parecia carregada de pedras. Adormeceu olhando gaivotas, desejando os olhos mais leves. No sonho,... Continuar Lendo →

Seguir

Ao passo do que preciso for desmanchar, desconstruir os rumores da memória, náufragos perdidos, laços dissolvidos desmuralhar os sentidos, reatar consigo. Ao passo do que a vida propor tornar a grão de areia, reconstruir.

A sororidade não passageira

Tinha os olhos inundados de uma vontade, as mãos em gesto de tentá-la, alguns calos no peito, alguns nós na garganta, um furacão de sonhos em novelo buscando um tecido como colchão. Se virava ao avesso, ousava piruetas, tecia a beleza de ser onda cheia apesar de toda sua inexatidão. Me pôs parada, quebrada, a... Continuar Lendo →

O mundo é fantástico, Alice

Alice, senta aqui, bem embaixo dessa árvore, vou te contar uma história. Mas fique atenta, Alice, mantenha bem aberto os olhos. Sem rota de fuga, sem que o veja como um labirinto sem fundo, o mundo é sua escola, Alice. Não precisa ser gigante quando se sente pequena, não precisa se apequenar quando se sente... Continuar Lendo →

Para não faltar prosa nem poesia

- Bem-vindo, seu moço, pode entrar. - Não sei que ventos me trazem, mas sei dos ventavais deixados atrás. - Ih, se vê nos olhos que seguem turvos mareados de temporais em alto mar. - Vim só e marcado pelas desembarcações que tive que enfrentar. - Somos sós, seu moço, eu que vivo de colheita... Continuar Lendo →

Com os olhos de mar

Vê - disse o moço do sol - que não há nada do que se esperar: não há onda em ida ou volta há a onda onde ela está, não há afeto pequenino ou a engrandecer há apenas o tempo do afeto que há, não há maquinista ou passageiro em destino alto lá há apenas... Continuar Lendo →

Sem janela, ou, a senha dela.

Ela tinha por hábito sentar-se a janela. Nas mãos, tintas de ouro retingindo a passagem do outro. Seu lugar não era lá. De tanta espera, teceu cortinas, ergueu grades, até que o sol em seus fios dourados não pudesse mais entrar. Ela não era mais ela, e sequer sabia o que mirar. O vão torna... Continuar Lendo →

De vento e pipa

João aprendera a soltar pipa. Lá debaixo admirado com tão alto ela ia sentia a textura da linha. A linha, tão fina, quase invisível, requeria uma sabedoria: a dos ventos. João absorto pelo céu e seus malabarismos de linha se sentia a pipa, tanto mais solta subia, maior sua alegria. Foi uma ventania, um rodopio,... Continuar Lendo →

Escuta, Alguém!

Há mais de dez anos atrás li o Escute, Zé ninguém, do William Reich. Demorei mais de dez anos para poder falar do livro. Hoje, por algum motivo tolo ou não tolo me voltou a cabeça o lido. O que Reich parece ter por intento fazer é descascar o ego, a vaidade a autoimportância. E... Continuar Lendo →

Por não calar

Desesperou-se Madalena: Para quê tanta chuva e trovoada, meu Deus? E Deus quebrou seu silêncio: Porque as saúvas estão levando toda a horta, porque as pimenteiras cobriram com sua ardência tudo a volta, porque as lagartas querem impedir o amor entre as margaridas e o casamento entre os girassóis, porque grilos fizeram acordos com galfanhotos... Continuar Lendo →

De Propósitos e temporadas

João aprendeu no colégio fórmulas de movimento. Ana aprendeu na autoescola a dirigir seu carro. Renato projetava estradas, Roberto as asfaltava. Maria tomou muitos tombos até se equilibrar na bicicleta. Raquel é nadadora paraolímpica. José sonhou ser comissário. Pequenos propósitos. Grandes propósitos. Serafim ninguém escutava. Joana queria ser escutada. Artur viveu sozinho. Rosangela teve treze... Continuar Lendo →

Harry wars ring

Todo filme ou história que de fato se propõe a mostrar o confronto entre mal e bem tem um embate final. Harry Potter, Star Wars, Senhor dos Anéis se encontram hoje entre os mais conhecidos. É fácil sorrir em tempo de brisa e céu azulado, é fácil admirar a mágica da leveza colorida das borboletas,... Continuar Lendo →

O braço, abraço pela janela

Uma janela aberta e uma pessoa fechada, braços cruzados, a vida passa feito paisagem, feito brisa, como chuva a vida passa. Sem mãos dadas, o elo passa. Passa rente passa perto passa disperso passa frágil, passa de passagem. A janela é só promessa a janela é possibilidade, para tocar precisa dar o braço.

Entre Doroty e Alice, a libertação

Doroty procurava o caminho, e fazendo o caminho sem perceber que já era em si ele, encontrou companheiros, integração de caminhos. Alice percorreu uma ilusão, e ao caminhar em sua própria ilusão se descobriu melhor para confiar em si mesma, então sua ilusão lhe serviu de caminho para caminhar a partir de si mesma. Mas... Continuar Lendo →

Cristal D’água

O cristal d'água pendurado a janela, passa três estaçōes aguardando a primavera. Apenas uma época por ano o sol incide seus raios naquele ponto exato, e faz feixes de arco-íris que a brisa coloca a circularem. É mágico, mágico como tudo na vida, que sempre se encontra ao alcance apesar de não visível ou palpável,... Continuar Lendo →

Do ato de entrelinhar 4 – Drummondiamando

"Amor é privilégio de maduros Estendidos na mais estreita cama, Que se torna a mais larga e mais relvosa, Roçando, em cada poro, o céu do corpo."* Amor é privilégio dos que se desagarram dos textos, da matemática de encontrar em linhas retas, essas mesmas que nos separam de seus encontros. Porque amor vem da... Continuar Lendo →

Em Lis, Sem Pector

Por anos a fio, Clarice!, carreguei aquele seu texto debaixo do braço, e achava, ah, por que achava?, que aquela sua solidão desde o berço, aquele querer pertencer sem conseguir ser, me unia na falta, me amparava, como sua solidão amparava você. Quantas mentiras a gente inventa, Clarice!, para justificar se obscurecer. Quanto castelo de... Continuar Lendo →

por novos e melhores ciclos

- Papai du céu, - Que foi, minha filha - imagina - Eu pometu num mi iscondê dibaixu da cama Chora um pouquinho, de levinho, respira fundo, enche o peito, segura os dedinhos, continua: - Mesmo si o medo di tomá bonca fô gandi. Mesmo si achá qui num intendo. Mesmo si o monstu fô... Continuar Lendo →

changes and chances

  Parou bem à porta do portão. A garganta de tanto tempo apertada, por agora se soltava: - Ô de casa! Era seu passe livre. Deixava de lado as chaves da culpa e das dívidas, via tudo como um céu limpo, temporário e livre. Se desencaixotava. - Tô de saída, quer dizer, de chegada. Aquele... Continuar Lendo →

alfabetização: pé-de-perdão

Uma caixa de giz gigante no colo, presente colorido, novo, novinho. Passou o dedo nas cores, sentiu milimetricamente as sutilezas das possibilidades que guardavam. Um vento frio e sonoro de festa junina soprava do outro lado da janela, e mesmo ao estremecer o sentindo, era como se nada mais se infiltrasse, como se nada mais... Continuar Lendo →

Do Ato de Entrelinhar – 3

Tempo Tempos Temos - Cris Ebecken (*Oração ao Tempo - Caetano Veloso) E cheguei ali, ou aqui, não importa onde, sem maquiagem nos olhos ou qualquer coisa nas mãos. A intenção era olhar nos olhos, e sentir fechando os olhos. Dança silenciosa que só comporta nos que vão com alma... "Tambor de todos os rítmos"... Continuar Lendo →

uma quebra e o inquebrável

Baguncinhas de vestígios de par restavam como que penduradas no sem sentido. Nunca se sabe o quanto duram ou para onde rolam os novelos de lã desbotados, como se o coração fosse uma criança desajeitada aprendendo a enrolar e a cortar a linha. Mas naquela tarde um sabor escorria diferente em seus movimentos e pedaços, como... Continuar Lendo →

A Libélula e o Vagalume

(Uma história de ano velho e ano novo - para o adulto que se permitir) Era uma vez... sim, vou começar a te contar uma história com o ar da vez que era; pois se de um lado o lúdico salva, de outro uma fantasia só pode ser destecida dentro de seu próprio bordado. Então,... Continuar Lendo →

Uma legenda em um “aff”

"Pois certas sensações deliciosas há das quais o indefinido não exclui a intensidade; e ponta mais aguçada não há do que aquela do Infinito"* Margeando a orla, sentada na pedra, um pequeno caderno de bolso silenciado sobre a perna. Há apenas uma surtez humaníssima. Render-se a si. A força do mar na murada é da doçura permissiva... Continuar Lendo →

Do ato de entrelinhar 2

DO PÓLEM DAS MÃOS EM FLOR (PARA VIVER UM GRANDE AMOR) "Para viver um grande amor, preciso é muita concentração e muito siso, muita seriedade e pouco riso — para viver um grande amor."* Para viver um grande amor, preciso primeiro é fazer-se despido, levar nos olhos o sorriso de quem não flerta com a... Continuar Lendo →

Gastar o Velho, Nascer o Moço

"Deixo tudo assim não me importo em ver a idade em mim, ouço o que convém. Eu gosto é do gasto."* Receita médica no spa das fugas:  Acupuntura, agulhas milimetricamente posicionadas nos bloqueios das contas impagáveis. Litros de silicone para preencher o amor bebido. Botox para paralizar velhas expressões. Ansiolítico para o bruxismo das preocupações fantasmas. Drenagem... Continuar Lendo →

Retalhar o ler como convém 1

Os dedos trêmulos de noite. O inverno e sua seca na boca. Non atos. O mistério do não querer entender. O ver, inevitável, da falta de ausência clara. Um livro há de forçar a ler o que já está ali, suspenso, escrito em si sem dizer. Ninguém escapa, solidão é silêncio de sentido em qualquer... Continuar Lendo →

Do ato de entrelinhar 1

"Simplicidade é artifício recolhido, dobrado, alisado a ferro. Leveza aérea daquilo que foi corrigido e passado a limpo."* Schhh... ouve o silêncio rompido pelos dedos nas teclas, da ponta do lápis em deslize pelo papel, do desalinho das palavras na garganta; o incômodo insatisfeito de estar a todo tempo se reescrevendo, se reeditando, os ecos... Continuar Lendo →

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