Guarda o Sol

Sabe que a noite trama em linha de prata a chuva fina, todo vento de desalinho despropositado se mostra espinho. Há mesmo uma vastidão que canta a liberdade do carinho, a condensação da alegria. Vê com mais verdade o que o abraço guarda da chuva. Olha com claridade o sol que não apaga na curva.

Torácica

Dor é espinha de peixe cruzada no peito, indigestão. Farpa no tato da retina, toxina. Reprise de memória não palatável, contra-degustação. Há quem se amordace, se envergue, cultive traça. Há quem se cale, rumine, erga muralhas. Mas há os que se despem, enfrentam deixando a dor doer até que sare e seguem libertos, com o... Continuar Lendo →

Solo Feminino

No movimento contínuo, atravessando noites. No solo de si: nutre. Entardece ciclos, recria a libertação das raízes através da pulsante força: flores. Imprudente o descrente que nada admira e erra nos olhos em foice, mãos frias. Errôneo o trôpego que tropeça quereres, falseia domínios. Ela contorna o tempo, se reergue lua após lua. É para... Continuar Lendo →

Do ser, a vida

As costas talhadas na dureza do outro, em pedra torta, fechada, embotada, rendeu noites inquietas, roucas. Mas os olhos eram vivos, inesgotável força. Atravessou ruas, contratempos, foices na angustia de ser um só e de só revelou-se não pouco quando a coragem desconstruiu muralhas, fronteiras, dores. Matéria de si viva, germinante, doce, nutrida em si... Continuar Lendo →

Solo

Derramava um silêncio de desatar nós, nós que já fomos, nós que borramos sóis. Sois da cor a pétala que desfixou, por força da voz o só, o nó, o nós. E por tato da falta de espera cansou e retonalizou em pluma leve, dispersa, para além do nó.

Chorus

Nenhuma crítica, nenhuma dúvida, nenhuma coisa alguma enquanto os olhos sentem todas as úlceras não minhas, do outro, enquanto dança a renda exposta das faltas, marcas. Nenhum colóquio, ponta de faca afiada sobre o peito do mundo que adormece em alucinação trôpega. Ah, mãezinhas, por onde andavam no tempo em que a dor se costurava... Continuar Lendo →

Salto

Buzinas, ruídos, tráfegos, vira e mexe lhe entupiam os sentidos. Desbotava, assim, como pétalas que pendem. Afogava no não ser, feito entorpecimento poluído. Quanto menos oxigênio no sentir, afogamento. Virava um carteado clichê, mímico de capas, etiquetas, sentado em praça pública, como quem só o tempo gasta. Indigesta cidade do reino do eu limitava. Até... Continuar Lendo →

Que tiros são esses?

O tiro que tiras de dentro do peito e atiras com mira ou alheio, me diga, de que é feito? Foi da tua luz ou da sombra, foi por luz ou por sombra, foi para a luz ou para a sombra? Agora, me diga, qual o defeito, o conceito, que se atira ou tira, e... Continuar Lendo →

Do tato

O menino sozinho na beira, as mãos tentando moldar e reter bola de areia. Os grãos distraídos escorrendo dos dedos, as ondas rítmicas os engolindo. Não se molda em areia, seu menino. Se esculpe no trato, no dedilhado, em barro. Mas até o barro racha frente a gesto descuidado. Era um sopro de brisa ao... Continuar Lendo →

Dicionário da Mutualidade

AFETO: no acolher, ser afetado e afetar no contato. CUMPLICIDADE: ser uníssono na vivência, na troca, laço. AMIZADE: ser banda no sol ou na tempestade. PAR: a arte de somar, sem borrar, afeto, cumplicidade, amizade. GRAÇA: uma sopa das quatro palavras.

Longitude

Afasta-te pé ante pé dos desvarios das margens, por onde escorrem as falas displicentes dos sentidos e infiltram limos de indiferenças. Escorra pelo profundo dos sentidos o mergulho despido em entrega e verdade. Liberdade. Ser a pele do contato dissolvida em água.

Do instante feminino

Tinha um pulso de tormenta dobrada no trilho do tempo andado. Uma força tremenda, em renda vazava os quereres de um peito que não se rende, deságua e segue pelos passos dados entre o medo e a coragem. Eram os olhos de colheita arredondados, contendo todos os elementos em um universo. Era um só feminino,... Continuar Lendo →

Desdobra

- Vê, meu filho, como esse mar transborda. O menino pequeno, com os olhos atentos, roçando o pé na areia, com algum estranhamento: - Tem borda? - Só olha. - Ó a gaivota! Ela entre a brisa e o peito doendo: - Você vai crescer e ter que ensinar um dia seu filho a ver.... Continuar Lendo →

Da grande miudeza

Das pequenas coisas com a singeleza do inquebrável: o ser por inteiro. Quando tudo a volta é mar de onda em quebra, a beleza está em chegar íntegro na areia.

Cala por calo

A tal dessa verdade ( o tao dessa liberdade) vem a galope, faz seu rasante. Pobre desses inexatos roncantes desses personagens em suas não integridades desconcertantes, feito crianças ásperas de poucas nuances, não sabem o quanto a verdade se faz gritante. Cala-te quando não sabe que a fala te é errante que torna-te pequeno frente... Continuar Lendo →

Do outro

Ele não sabe o que fala. Ele não sabe o que cala. Ele sabe e não arde enquanto arde e não sabe o que não sou que não cabe o que sou que não me sabe, enquanto eu quanto a ele sei nada, não me cabe, não me falo e não me calo na densidade... Continuar Lendo →

A roda do mar sem beira

Quando aceitamos quem não veio e aceitamos quem se foi, aceitamos o passo da dança e seus novos começos. Quando aceitamos o que se fez e aceitamos o que se deixou deixamos de lado a dança para ser fora da dor. Quando aceitamos o não dito e aceitamos o que se vivenciou, saltamos para fora... Continuar Lendo →

No amor não se perde

Da época que trabalhei em CTI, entre os casos que mais me marcaram foi o de uma paciente, que vou aqui renomear com o apelido de Jasmim, e de seu marido, também aqui com nome fictício, Lírio. Conheci Jasmim em uma internação dolorosa, tinha um tumor em região inoperável da cabeça, que havia sido diagnosticado... Continuar Lendo →

Por uma ética emocional nas relações

Existem muitos textos atuais, questionadores e incríveis, falando de superficialidade nas relações nos tempos atuais. Não vou chover no molhado, mas vou propor uma entrelinha com outra linha de costura. A palavra ética é sempre tentadora, escorregadia, circular. Da época  em que trabalhava em saúde, por mais árduo que fosse o debate, menos incerto do... Continuar Lendo →

Com os pés no chão 01

A gente não muda o outro. A gente muda a escolha de como lidar com o outro. A gente não diz como o outro deve caminhar. A gente escolhe com quem, como e até o onde caminhar.

Simpleser

Sobre simplicidade:reconhecer o que é, aceitar as possibilidades escolher com sua verdade. Sem beira de espera ou entremeio, livre para ser. 🌸🦋 *imagem pinterest

Entre a espada e a paz

Entre a espada e a paz, os passos do caminho. Da espada, a verdade. Da coragem, a paz. O guerreiro segue. Seguir o faz.  Entre a espada e a paz, o reflexo na lâmina do propósito que o leva e o faz. Tantas sejam as pedras, tantas sejam as perdas, tantas sejam as quebras, o... Continuar Lendo →

Fora da margem

Do outro lado da margem da esperança canta uma brisa que trança a lógica incomum dos sentidos. Ela tinge os espelhos com as palavras que comungam nos silêncios. Ela cala os cinzas das pausas lembrando o que permanece em movimento. O reverso das distâncias, a métrica ilógica da confiança, o contato, com tato, ela dança.... Continuar Lendo →

Corriqueiras Alegorices 6

Enquanto houver muralha como necessidade nas fronteiras haverão castelos templos do medo. Enquanto houver lança chamas como necessidade dos castelos eles serão meramente pedra e areia. A vida é a arte do jardinar. Somos colcha de retalho onde a costura e o gesto é amar.

Fina Flor

A volta tudo é suficiente e próspero. São os olhos viciados em faltas e as mãos fechadas dos quereres que ilham dos continentes do ser. Vale mais lançar- se despido aos braços que reter-se no deserto das máscaras.

Insights Itinerantes 15

No simples, está tudo sendo dito: sinais, metáforas, silenciosas epifanias. Viver foge a métrica. Nada se sabe o que virá, do percalço, do calçado, do passo dado. Se o universo conspira, há de se saber ler na entrelinha, desenquadrar a mágica inspirar os sentidos. Na brisa, chega o suspiro, doce, intensamente doce, com seu dito:... Continuar Lendo →

Dissoluções Possíveis

Dissoluções são para os fortes, aos entregues à coragem mesmo quando o vento rodopia os pensamentos e bambeia os passos. Há no ato que entorna os gestos o desalinhavar das fronteiras. Há nos gestos que lançam o ato o mergulhar através de si mesmo. Dissoluções são danças sincopadas e silêncios de verdade. Redenções.

Dos nãos aos sins

Não se alongar nas relações que não colorem, Não se reter ao que desbota, Dissolver arreios, âncoras, gastas botas. Ousar o solo. Ser entrega ao que recolore. Tingir a dança, a trança, a valsa e todas as notas. *imagem pinterest

Habitat dos hábitos

A palavra ergue paredes: ou afasta ou aproxima. Os gestos, senhores das moradas: ou enlaçam ou desalinham. Escolhas, como janelas: encerram ou iniciam. Vidros, telhas, azulejos: ou polidos ou rachados. Há de se saber mais dos terrenos para os passos: ou férteis ou áridos.

Aceita-ação

Aceitar a escolha de quem te destrata, Aceitar a escolha de quem não te escolhe, Aceitar a escolha de quem se afasta, Aceitar a escolha de quem não abre, Aceitar a escolha de quem lhe enquadra, Aceitar a escolha de quem lhe critica, Aceitar que as escolhas são pessoais do escolhedor com o próprio escolhedor.... Continuar Lendo →

Desterro Próspero

Existem os que agregam e os que se desagregam, os que se reconhecem e os que não enxergam. Existem os que são em troca e os que segregam, os que se encontram  e os que se exaltam. Existe o rico e o pobre  em uma moeda inversa onde próspero é quem não tem a ilha... Continuar Lendo →

De acordar

Sob a noite escura das nossas próprias cegueiras enquanto o peito turva por falar alto o medo render-se é desfazer-se de si mesmo. Simplemente seja. Feito a água ou a lua em espelho. Feito a árvore a desfolhar e refazer-se. Salte. Desnude. Solte. Salgue-se. Queime-se para fora da quimera. Amar a si é sem eira... Continuar Lendo →

Om Namah

Se calar as formas brutas, a imposição da força, a falta de amor que nos separa, a voracidade, as dúvidas, as fronteiras dos personagens, as entraves, a mendicância de si, a sede por se por ilhado, essa guerra que em tudo reflete a própria sombra. Se abrir ao derramar da vida, a amabilidade das oportunidades,... Continuar Lendo →

Paz é a consciência do instrumento que se é, e o reconhecimento de seu próprio tempo de afinação e aprimoramento.   

Simplicidades que racham 02

   A luz vai passar não importam quantas paredes muralhas, guerras, manifestos. A luz dissolve o mármore que encobre as idéias que emuralham a falta de fé na fé que não enxerga, e o império. Caem ditos, impostos, reclames, e adornos, julgamentos, moedas. A luz passa. A luz vaza. A luz segue em seus pequenos... Continuar Lendo →

Amando se aprende de amor, parafraseando

Amor não é por encomenda, nem por barganha, nem por crédito. Requintado em sua simplicidade, amar não é breve. Amor não é parcelado, mas também não se tira em casa lotérica. Não aposte no amor como quem lança sorte no bingo ou compete a cavalgadas. Não espere uma carta de crédito, um testamento, uma cobertura... Continuar Lendo →

a bailarina e a caixa

Gira a bailarina na caixinha em seu mesmo eixo sobre sua rígida perna ao som da regra em seu círculo dentro do círculo. Salta, bailarina! Se liberta dos dedos e escolhas alheios que lhe consentem a corda e a tampa aberta. Quebre a regra, flexibilize a perna, corra o risco, deixe a caixa vazia.  Leva... Continuar Lendo →

Das pequenas menções

A vaidade tem essa faceta irônica: quanto mais se agiganta o vaidoso mais se torna desinteressante, esquece que suas pequenezas quanto mais encobertas mais se agigantam. Se engrandece quem se liberta da imagem, quem se despreende das bordas dos olhos alheios, quem se desvencilha de sua própria margem rasa  e parte de si para a... Continuar Lendo →

Que espetáculo dos horrores o ego tolo e vaidoso se condena a fazer. Sem ter como aplaudir saio para respirar lá fora. A vida é um espetáculo mágico fora do teatro egóico.

Os que caem não fazem mais fortes os que ficam de pé. Quem alcança só, não chegou ao final. Prosperidade não é quanto se tem, mas o quanto se troca.

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