Linguagens de Poder

Linguagens de poder: escritores transgressores, escreventes em labirinto

Cris Ebecken – 2009

“(…) o conflito é sempre codificado, a agressão não é senão a mais acalcanhada das linguagens. Ao recusar a violência, é o próprio código que eu recuso”

(Roland Barthes, O Prazer do Texto)

           

Entre o labirinto e a transgressão, como dois pratos de uma balança exercitando um equilíbrio nunca alcançado, há o lugar transitório de se tentar achar o eixo que sustenta sem dosar, que liberto da dosagem transgride intimamente todas as vozes de medidas pré-estabelecidas em um malabarismo sobre o fio da percepção do sentido. Falar sobre linguagens de poder já é em si o próprio labirinto, com o risco de praticá-las caminhando à sombra; escrever, então, lança à dança entre a função e a atividade: por um ritmo se transgride, por um passo marcado se percorre corredores. No curso dessas paredes sociais e geografias históricas, a linguagem por vezes estampa seu vestuário de exercício do poder, enquanto a literatura por outras insinua virar ao avesso seu tecido.

Por uma trilha deste percurso seguiu Roland Barthes ao chamar a atenção para a língua como objeto em que se inscreve o poder, a ferramenta através da qual se operam as dinâmicas sociais de coerção e controle. Neste ponto, a diferenciação que propõe entre escritores e escreventes, bem como o constatar uma modernidade de escritores-escreventes, auxilia a compreender a maleabilidade das dimensões de lugares do texto literário. Escritores seriam os que realizam uma função, que concebendo a literatura como um fim, movimentam sua ação sobre a linguagem. Já utilizando a linguagem como veículo de pensamento, estariam os escreventes realizando uma atividade. Escritores e escreventes seriam, assim, os detentores da linguagem, uma vez que operam a articulação dos saberes.

“é no interior da língua que a língua deve ser combatida”

(Roland Barthes, A Aula)

Combater linguagens de poder não seria, então, um contra-discurso, mas uma transgressão da operação da estrutura; aonde o que Barthes chama de “girar saberes” envolveria o desobrigar-se a dizer enquanto reprodução da norma: escreventes refletindo o saber sobre o saber, escritores na liberdade unicamente possível ao momento de escolha e escrita. Considerando poder todo o discurso que engendra o erro e a culpabilidade, a linguagem poderia ser vista como um novelo farpado a entremear uma enorme cama de gato desde seus lugares mais esperados como o Estado e as instituições, à moda, esportes, informações e relações íntimas. Barthes convida à trapaça, a trapacear com a língua e a trapacear a língua, ao se permitir ouvir a língua fora do poder, “no esplendor de uma revolução permanente da linguagem”, o que chama por literatura.

Partindo da compreensão da língua como corpo de prescrições e de hábitos comuns aos escritores de uma época, Barthes propõe olharmos o escritor a partir da transgressão de sua ação na escrita, uma vez que escolhe uma área social para debruçar seu estilo e erguer sua forma, a partir de uma felicidade ou de um mal-estar, estabelecendo a relação criação-sociedade. Há aí a inevitabilidade de pensarmos sobre tempo histórico, mas um certo cuidado necessário quanto a não fecharmos  a ótica, como Sartre, em um escritor obrigatoriamente como indivíduo engajado ou político.

O escritor, como todo ser humano, é sujeito histórico, indivíduo dentro de seu tempo, imerso em sua teia social, e diverso em sua construção subjetiva. Dialoga, assim, interagindo diretamente ou em silêncio, com seu universo interno e o universo externo. Mas a linguagem jamais descarrilha de seu trilho de existência, revezando-se entre vagão e maquinista na linha da vida. Eis o motivo para se olhar com desconfiança e cuidado a temática das linguagens de poder, tendo em vista que por tempos incontáveis as culturas se erguem a partir dos andaimes da coerção e dos cimentos do controle.

“Se nunca tivéssemos escravizado uns aos outros, o ideal de liberdade da servidão não teria sido necessário.”

(Murray Sidman, Coerção e suas implicações)

Se vivemos época a época norteados pela bússola dos padrões sociais, não nos cabe a ingenuidade de nos supormos libertos das práticas de controle. Se caminharmos deslizando a escada que leva aos saberes pela biblioteca do tempo dos pensadores (barthianamente: dos escreventes), mergulharemos em labirintos projetivos de tentativas de abolir, explicar ou reproduzir os efeitos das linguagens de poder no curso da história humana. Cada qual ao seu tempo, e de sua escolha de lugar de fala, move as correntes da língua na busca redentora, porém sempre escorregadia, da saída do encarceramento cultural da linguagem. 

Eis o ponto que vai ao encontro de Barthes quando refere-se à literatura como utopia da linguagem. O escritor, significando a literatura “segundo possíveis que ele não domina”, desenrola uma autarquia da linguagem sobre sua mitologia pessoal, lançando-se ao amodal na transgressão trapaceadora de romper com as amarras do labirinto dos que se situam na obrigação do dizer. Aqui, criação e simbólico são cordas de passagem de contato com o outro lado, com o leitor e o meio, sobre o abismo dos silêncios falantes das normatizações. O que vale, a moeda que não é de valor, nem de troca, é o convocar o interno, chamar desinteressadamente ao par de dança sem coreografia absolvendo-se da platéia.

“Se a linguagem fosse reduzida a descrever o imediato empírico, ou o óbvio, então seria melhor se calar. Um dos desafios, um dos chamados da linguagem – essa é a sua dimensão poética – é exatamente tentar dizer o que não se consegue dizer, dizer algo do indizível.”

(Severino Antônio, A Utopia da Palavra)

Então, deixemos o leitor entrar em cena; há um diálogo não dialógico, uma passagem incongruente por entre linguagens. Para Barthes, o texto fica fora das linguagens por liquidar toda metalinguagem, destruindo as referências sociolingüísticas, desatrelando-se da unidade moral exigida dos produtos humanos; “é a subversão de toda ideologia que está em causa”.                                       É a deflagração do sentido para o leitor girando sua função, reconstruindo e criando monólogos.

Entre a subversão e a cultura eclode a força do texto. Todos os sistemas ideológicos ficam detidos como ficções sustentadas por falas sociais, e a linguagem rende a própria linguagem confeccionando artesanalmente seus espaços de fruição. Barthes situa o leitor no chegar à fruição pela coabitação das linguagens, aonde inicia-se o texto insustentável, entrelinhado no não-entredito, não sendo o prazer um elemento deste, nem uma lógica de entendimento, mas imoral e atópico: uma deriva imprevisível. A fruição é, assim, associal e clandestina, uma nudez de estereotipias, uma expressão de verdades sem rédeas, uma ausência de verdades representadas.

“A escrita de resistência, a narrativa atravessada pela tensão crítica, mostra, sem retórica nem alarde ideológico, que essa “vida como ela é” é, quase sempre, o ramerrão de um mecanismo alienante, precisamente o contrário da vida plena e digna de ser vivida”

(Alfredo Bosi, Literatura e Resistência)

            Torna-se, com isso, necessário arriscar falar de literatura enquanto resistência, como força oposta em busca de uma verdade expressiva. Se em um lado habita a tensão cultural, todo um universo social marcado por mecanismos de controle, jogos de regra, estereótipos de contra-controle, e falas em conflito; em outro reside a tensão individual, os pontos-cegos das angústias, as armadilhas viciadas de atender às superfícies e fantasias. As linguagens de poder governariam neste cenário as crises nos laços sociais, imperando como exércitos homogenizantes, equacionando e a todo tempo subjugando à condição de erva daninha toda a diferença e pluralidade da existência.

            Mas tudo que se prende somente à forma tem por tendência levar ao vazio, à escassez subjetiva; e no que se refere à existência, todo o vazio é sinônimo de ausência de sentido. Eis o lugar do chamado interno por algum espaço de resistência. Linguagens de poder são vozes de coerção; mesmo quando sutis, direcionam seus alvos a sobreviverem evitando os apertos dos incômodos, alienando o ir ao encontro do sentido. A literatura enquanto força de resistência reina humana e deflagradora, fecundando a equação diametralmente oposta, a que soluciona-se na palavra vida. Vejamos:

             “Por que a poesia tem que se sustentar

de pé, cartesiana milícia enfileirada,

obediente filha da pauta?

Por que a poesia não pode ficar de quatro

e se agachar e se esgueirar

para gozar

– carpe diem!

fora da zona da página?

(Waly Salomão, Exterior)

            No fragmento de Exterior, de Waly Salomão, uma semelhança clara, porém sutil, chama por Barthes em O Prazer do Texto: o uso da cena do erotismo para falar de literatura, o uso da referência ao ato do gozo, como também utilizado pelas correntes da psicanálise, para conotar vida. Mas é preciso ir além, buscar recortes de poder, pinçar o pulso dos escritores, para não nos perdermos pelo labirinto da sobrevida, e não nos sujeitarmos a co-existir enquanto milícia enfileirada. Há aqui a transgressão do gozar o gozo, o esgueirar-se levando poesia para fora da zona da página, olhar com desobediência os códigos em pauta.

“Realismo mágico, alegorias, parábolas, ego-trips poéticas? Tudo se explica em função do aparato repressivo do Estado autoritário.(…) Romance-reportagem, conto-notícia, depoimentos de políticos, presos, exilados? Tais opções também estariam ancoradas numa resposta à censura.(…)

Ao contrário do que se pensa normalmente, a censura não foi nem a única, nem a mais eficiente estratégia adotada pelos governos militares no campo da cultura depois de 1964.”

(Flora Sussekind, Literatura e Vida Literária)

Compreendendo-se censura e repressão como campo minado das linguagens de poder, como movimento coercitivo de fazer calar em prol de um afunilamento das representações sociais, a produção literária decorrente do período da ditadura no Brasil, é povoada por criação e resistência de escritores que transgrediram pela expressão vestindo boas luvas de pelica. Entretanto, como desvenda Flora Sussekind, há nesse período da produção cultural brasileira, uma necessidade de compreensão fora das margens da ingenuidade reprodutiva, por ele guardar, feito um baú de representações, a força do desdobramento das linguagens de poder, inclusive seus ecos e efeitos na escrita dos nossos escritores e escreventes. A própria utilização do veículo midiático como linguagem do espetáculo operou como intensificador da repressão, promovendo esvaziamento ideológico e encerrando a um beco a intelectualidade. Partindo por Barthes, o foco não é para ser direcionado para a censura em si, mas ao desenrolar da ação do escritor sobre a escrita, sua escolha de lugar de fala, às fendas dos encontros de linguagens, o que parece facilitar o captar ecos e efeitos.

            “Estou muito compenetrada no meu pânico.

Lá de dentro tomando medidas preventivas.

Minha filha, lê isso aqui quando você tiver perdido as

esperanças como hoje. Você é meu único tesouro. Você morde

e  grita e não me deixa em paz, mas você é meu único tesouro.

Então escuta só; toma esse xarope, deita no meu colo, e

descansa aqui; dorme que eu cuido de você e não me assusto;

dorme, dorme.

Eu sou grande, fico acordada até mais tarde.”

(Ana Cristina Cesar, Luvas de Pelica)

            Neste fragmento de Ana Cristina Cesar, a atmosfera do esvaziamento e do medo impera na autenticidade estilística; no refletir a solidão e ausência de esperança como necessidade de fechar os olhos feito quem fecha quebrando a forma da fala e burla os silêncios. Silêncios são vazios preenchidos por sentidos, a fala traz o leitor ao lugar de uma pequena endereçada, e a confessionalidade não quer expressar nada além do que tange as significações. Mas ela segue:

“Quero te passar o quarto imóvel com tudo dentro e nenhuma

cidade fora com redes de parentela. Aqui tenho máquinas de

me distrair, TV de cabeceira, fitas magnéticas, cartões-postais,

cadernos de tamanhos variados, alicates de unhas, dois pirex e

outras mais. Nada lá fora e minha cabeça fala sozinha, assim,

com movimento pendular de aparecer e desaparecer. Guarde

bem este quarto parado com máquinas, cabeça e pêndulo

batendo. Guarde bem para mais tarde. Fica contando ponto.”

(Ana Cristina Cesar, Luvas de Pelica)

            E então a recusa ao externo, o firmar o valor do interno. Como um pêndulo batendo, somente a percepção dos sentidos. Subvertendo, a desconstrução do alienante. Um parar a linguagem maquinária para contar o que toca pelas brechas.

“O escritor se encontra sempre sobre a mancha cega dos sistemas, à deriva; é um joker, um mana, um grau zero, o morto do bridge: necessário ao sentido (ao combate), mas ele mesmo privado de sentido fixo; seu lugar, seu valor (de troca) varia segundo os movimentos da história, os golpes táticos da luta: pedem-lhe tudo e/ou nada.”

(Roland Barthes, O Prazer do Texto)

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