Poesia Infantil Brasileira

Poesia Infantil Brasileira:

o jardim das páginas crescentes

Cris Ebecken – 2009

“Certa palavra dorme na sombra

de um livro raro.

Como desencantá-la?

É a senha da vida

a senha do mundo.

Vou procurá-la.”

(A Palavra Mágica, Carlos Drummond)

            Como tudo de acordo com o fluxo da vida, é preciso começar do início. A palavra mágica, rara e rica pela condução dos sentidos, adormece na sombra do olhar do adulto escondida dentro da poesia. Se do latim versus significa retorno, volta para trás, poiésis indica ato de criar, e textum significa tecido, nada mais justo do que a brincadeira metafórica de se buscar o tecido da infância no verso poético. Pois desencantar a palavra talvez seja acordá-la do enrijecimento, ou quebrar o feitiço do aprisionamento, para que possa seguir em sua função simbólica ad infinitum. Então, nada mais preventivo e curador do que a poesia na infância e a poesia para crianças; e para falar delas, opto por percorrer os degraus interiormente conhecidos, já que da poesia apenas poderia encontrar algum lugar de fala de dentro da própria elipse existencial. 

“Escadas de caracol

Sempre

São misteriosas: conturbam.

Quando as desce, a gente

Se desparafusa.

Quando a gente as sobe

Se parafusa.”

(Escadas, Mário Quintana)

            A criança em si, pela maleabilidade emocional e neuronal, rende a melhor metáfora, bem como a minúcia da concretude, da palavra plasticidade; e neste aspecto pode-se brincar facilmente a considerando a palavra plástica, uma vez que norteia seu foco e aprendizado fora das cercas dos julgamentos e racionalizações pré-estruturadas, levando a frente como busca a verdade, o saber através da experimentação livre e aberta, encaixando sentidos e significados. Todo adulto um dia foi criança, e por mais que não se lembre, ou emocionalmente tenha se distanciado deste percurso etário, em alguma gaveta de memória guarda seus lápis coloridos do universo lúdico, ali, bem lá no fundo, há um cheiro de poesia acolhendo, pois o lúdico é a ferramenta de organização interna mais utilizada na infância, e a poesia o canal mais plástico de condução dos sentidos.

 “Menino poeta

faz com as palavras

um gol de bicicleta.”

(Felicidade de Menino, Lalau)

 

Por todo tempo de pesquisa e trabalho com crianças, aprendi, irremediavelmente, que palavras são boas quando usadas sem roupas, e quando por necessidade vestidas, convêm encher-lhes de tintas coloridas os tecidos. Eis o ponto de encontro das águas da infância e da poesia: o brincar de marinheiro do sentimento, indo em busca das ilhas desconhecidas do mundo de dentro, costurando no verso das ondas passadas os riscos de sol e de lua captados pela retina. E se há essa confluência, estranho seria não abrir um bom espaço na estante para a poesia infantil, sobretudo a brasileira. Mas o desafio do marujo começa no porto procurando a sua embarcação: encontrar as livrarias que disponibilizam a altura das mãos, grandes e pequenas, esses livros.

 “Na caixa esquecida

me espera uma chave de

justa medida

mas já não importa

enquanto buscava

perdi a porta.”

(Que fim levam?, Marina Colasanti)

           

            Pesquisando em mapas da história da Literatura, uma coordenada ou outra aponta para a direção do escasso prestígio, um olhar gasto de tempo que considera a poesia infantil como uma literatura menor. Aqui caberia o suspiro de inteligência despretensiosa da criança: coisa de gente grande! Mas o tanto mais de boa teimosia na busca é recompensado pelos tesourinhos espalhados: poesia dos grandes em livros para os pequenos, mescladas com livros de poesia infantil florescendo em cantos da cidade: todo um horizonte se abre aos bordados.

            Entre os mais antigos dos recentes que versaram diretamente para crianças, se encontra Pedro Bandeira, que, entre cavalgar o arco-íris e pedir mais respeito, assume o lugar da voz infantil no diálogo com o adulto em suas poesias, e dele estabelece uma dialética de equanimidade interna com a criança. Seguindo por uma costura do mesmo tecido, embora com outro fio, Marina Colasanti borda essa dimensão de diálogo interno através do lugar do imaginário infantil, suas poesias abraçam o universo de apreensão de imagens da infância; enquanto Manoel de Barros brinca de pescar o ângulo perceptivo da criança para dirigir-lhes a palavra de dentro de sua linguagem. 

Um contraste interessante é o tempo impresso na marca geracional desses poetas. Carlos Drummond e Mário Quintana, por exemplo, seguem por outro tecido: o lugar da linguagem da delicadeza, enquanto Cora Coralina arremata as letras com lãs cor de memória. Cada um dos mencionados a cima, ainda em vida ou imortalizados, além de corajosamente terem se aventurado neste oceano, e deixado suas sementes de inspiração as gerações seguintes, possibilitaram que ficasse guardada na poesia o lugar e o olhar para a criança de seus respectivos tempos, o que convém ousarmos aqui com a concepção adultecida do “fazer história”, e, sobretudo literária.

 “De mãos dadas com um lápis

arrisco o desenho da vida…(…)

Tingir no tecido do tempo

um menino de olhos pra dentro

liberando sonhos, ilusões…(…)

Artes de um menino afinado

com o interior de sua terra nascente

de barro, de areia, de gente…”

(Com o Coração na Mão, Fátima Miguez)

            Como toda história segue sua trajetória, e toda poesia é um fio que se multiplica, a produção poética brasileira para crianças parece estar em processo de ampliação de seu jardim. Novos tons brotam e se diversificam. Entre eles um luminoso ar atento em cultivar cultura desde cedo chama a atenção: poesia infantil sobre pinturas, referências lendárias e mitológicas, raízes culturais, contrastes sociais, diversidade religiosa, e ecologia, se entrelaçam nas publicações sem tendência a cunho cru pedagógico, mas sim de convocar o preenchimento dos sentidos. A linguagem simples e clara, direta, vira e mexe sonorizada, acompanha a dança da maleabilidade como uma brincadeira de roda poética. Dela fervilham entrelinhas convidativas ao dar as mãos e seguir no barquinho da ludicidade como quem desbrava um mundo novo. E, inclusive, dificilmente um adulto diante delas não se sentiria também convidado a rebordar pelo texto.

            Então é preciso retomar uma nuvem que deixamos lá no início do fio que puxou essas palavras até aqui, e retornar a percorrer as escadas com a chave na mão: o lúdico e o onírico se assemelham pela característica de organizar o interno, e se distanciam pela realidade ou irrealidade da vivência, mas a poesia estabelece entre eles uma ponte, e provável que por isso tenha a sua faceta preventiva e curativa, porque convoca ao saber de dentro. Mesmo que o poeta debruce o olhar das palavras para fora, o lirismo se abre com a garganta do coração. Não a toa se prende primeiro o poeta; a poesia, nas amarras estilísticas e culturais do seu tempo ou não, é gaivota liberta solta alto no céu azul, inspirando a tecelã, guiando o marinheiro.

            A criança em sua mera existência já se encontra intimamente ligada à poesia por isso, e o valor da poesia infantil é guardado nesse livro raro: dançar junto por e entre palavras, experimentar traçar as rotas da criação, saber-se familiarizado com a poesia da existência desde o início.

“Tudo ficou mais leve no escuro da casa.

As escadas pararam de repente no ar…

Mas os anjos sonâmbulos continuam subindo os degraus truncados.

O sonho vai devorando os sapatos

Os pés da cama

O tempo.

Vovô resmunga qualquer coisa no fim do século passado.”

(Noturno, Mário Quintana)

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