Meninice Grande

“que o esplendor da manhã não se abre com faca”

(Manoel de Barros)

Escondido no lugar dos lugares do comum, tentando burlar o labirinto, o menino treina com seus sonhos. Nove, onze, treze anos… que importa? É um menino que pensando em um dia ser alguma coisa de gente grande, procura aonde pode ser grande o ser do sonho. Senta-se à frente da moça dos ouvidos, sabe que ali ele pode, mesmo que para todo o resto seja indevido, contar o que lhe importa. A moça, jamais esquecida da criança que um dia como todos fora, sabe da importância dos sonhos da meninice sobre o ser gente grande; e a todo custo dos estudos dos neurônios se atenta ao menino, ensina sobre primaveras e podas, e amortece o dano dos espinhos.

Pela segunda vez encontrado que só, afirmava ele agora que iria investir no esporte. Calças pescando, blusa do ensino público, família nenhuma acompanhando. Medalha na cabeça e fé na possibilidade dos olheiros, contava à ela porque migrava de canto:

– Na aula de teatro, sabe, se repete, repete, repete, nunca tá bom e pouca gente vê. Agora, no esporte, aonde eu tô, fazendo uns pontos, indo pra competição, é diferente. Lá eu acho que sou melhor porque lá eu tenho mais chance. Sabe, chance. Pra ter chance o cara tem que ser visto.

Ela, gente grande que só, sentada no balanço do metrô horas depois reparava os rostos a volta. Quem ali teria tido chance de sonhar a olhos vistos? Quantos operários de si buscavam a chance de uma obra grande?

 

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